terça-feira, 1 de janeiro de 2013
"... e João desamou a Maria, como desamara a tantas coisas.
Mas atentai, severamente, para estas palavras,
examinai cada um com o sentido do cosmos;
João, sem outro caminho, desamou Maria.
Precisamente, isto foi tudo o que aconteceu.
E as margaridas se coroaram com suas engrenagens brancas ou amarelas,
surgiram botões e prolongamentos audaciosos;
os mares, com suas marés, fizeram e desfizeram o ciclo,
os pássaros migraram, se é que disso precisaram
segundo suas obedecências biológicas,
e o universo não ruiu, como era de se esperar;
não ruiu, como era de se exigir;
não ruiu, como era de se ruir;
ou melhor, ruiu - exatamente isso: ruiu.
E Deus, com medo de se acabar,
fez depressamente outro universo exatamente igual,
com margaridas, mares e pássaros!
Mas sabei, por amor à verdade e amor ao amor,
que este universo, o novo, o exatamente igual,
era outro universo;que precisamente era outro,
igual, certamente, mas outro;
cópia, pois bem, mas cópia;
um universo tão fabulosamente igual ao primeiro
que ninguém percebeu, exceto Maria,
que era outro, onde ela teria o direito e a liberdade
de cultivar uma absurda saudade de algo que existiu
e que, não existindo, existe mais profundamente
porque resta a flor, o mar, o pássaro
como testemunhas do que se criaria pelo amor
que um dia João teve a Maria"
Humberto Haydt
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